Mostrando postagens com marcador Fantasia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fantasia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Vão as bolsas, ficam as alças

As alças usamos em outras bolsas.
Montamos um look diferente.
Uma bolsa nova, uma alça decadente.
Ora se combinam, ora brigam entre si.
Quem olha nota. Outro ri.
As bolsas descartadas vão ficar junto às outras "desalçadas".
Todas amotinadas,  recebem, às vezes, algumas alças desprezadas.
Tudo vai mudando e tudo se vai sem esperança.
Porém, só não muda quem faz a mudança.

- Flávia Freitas Gomes

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Carta

Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 2001.


Senhor Carlos Lira Matos:

        Nos dias que se seguiram após o recebimento de sua carta, a qual eu li imersa em minhas lágrimas, pensei incessantemente na decisão tomada por mim quanto à vida indefesa que carrego no meu ventre. Seria ilusão de minha parte prosseguir com a ideia de que, retirando o fruto de uma violência sexual, me absteria das lembranças que me fizeram tomar tal atitude.
A ausência de uma figura paterna e recursos financeiros também me privaram de analisar as consequências ruins que um possível aborto traria a meu corpo. Mulheres mutiladas e histórias de outras que perderam a vida retirando a que estava dentro de si me serviram como exemplo, ao explorar minha consciência um tanto confusa em meio aos fatos que ocorreram comigo, de que o julgamento que havia tomado era errôneo. Contudo, não posso deixar de dizer ao senhor, que tanto me influenciou a mudar de opinião, que infelizmente não tenho como oferecer um futuro digno ao feto que está em meu ventre. Desse modo, prefiro entregá-lo à adoção, onde uma família dará a ele um lar, amor e esperança de dias melhores. Melhor que vê-lo passando por necessidades básicas de vida.
Agradeço pela atenção e incentivo à valorização da vida. Igualmente ao senhor, não sou católica e nem tenho religião.  Porém, mesmo sem credo, sei que a vida é mais importante que armas, guerras e resultante choro e dor. E se a violência acarreta essa marcha constante em direção à morte, começo a caminhar contra ela com pequenos passos e uma atitude bem simples: deixando a vida viver.

Atenciosamente,

Sabrija Gerovic

Flávia Freitas Gomes

sábado, 14 de maio de 2011

Ele é

O Amor
Sentimento que domina
Que à vida dá a cor

Amor
Entre duas pessoas
Quem o sentiu também já teve dor

Amor
Tempero da saudade
Ao beijo o sabor

Amor
Da alma o esplendor
Da convivência o vigor
Dos apaixonados a flor.

- Flávia Freitas Gomes

sábado, 19 de março de 2011

Estética x Valores: Confusão de Identidade

Meu nome não importa. Não tenho identidade. Desde muito cedo criei o vício de imaginar que todas as outras pessoas eram melhores que eu e assim fui "construindo um eu ideal". Pegava manias interessantes daqui, vestia uma roupa singular dali, me comportava como fulano ou ciclano. Mas um dia aconteceu algo estranho que me fez despertar daquele hábito cíclico.
Estava fazendo caminhada numa trilha híngreme que me levava até o topo da mais alta montanha que já conheci. Fazia este exercício uma vez por mês desde o dia que vi deslumbramento nos olhos de uma adolescente que fazia o mesmo. A partir daí queria este encanto para mim, mesmo que nunca tivesse gostado de fazer exercícios físicos. Pois bem, quando acabei de quase escalar a montanha senti que deveria ficar encantada com a vista de lá de cima - sorri. O vento, o frio, as luzes que a pouco se acendiam ao entardecer não comoviam profundamente meu coração. Exausta e decepcionada comecei a descer a montanha por um caminho diferente para, quem sabe assim, encontrar algo que inundasse minha alma de felicidade. Para minha surpresa, em um ponto mais plano da montanha, encontrei uma pequena lagoa alimentada por uma fonte fraca que surgia daquele lugar. Fui até perto, me agachei, olhei meu reflexo e logo lembrei da história de Narciso. "Simples e totalmente avesso a mim" - pensei. Narciso se encantava com a imagem que via refletida no rio. Tanto que morreu afogado. Eu me olhava, mal me reconhecia e muito menos via beleza naquela estranha a minha frente. Aliás, o que é beleza mesmo? Ao ver a estranha a minha frente aquele dia tive impressão de não conhece-la, de não saber o que havia de "bonito" nela. Fui embora pensativa.
Agora estou construindo minha identidade sem saber pra que existo como todas as pessoas sobre a face da Terra. Talvez descubra de vez um dia quem eu seja. Talvez eu vá conhecendo pouco a pouco a pessoa que verdadeiramente sou. Talvez meu destino seja mesmo viver sem me descobrir e sem definir o que  é beleza. Talvez eu vá descobrir que beleza é apenas um conjunto de regras estéticas que alguém ou "alguéns" impuseram - ou impõem - ao mundo. Talvez veja que beleza -
aquela que é visível aos nossos olhos - nem exista, porque o que forma nossa identidade é a beleza interna. E pelo menos isso eu descobri.

- Flávia Freitas Gomes

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

João

João era um sujeito simplório. Porém, sua fama de usar uma linguagem rebuscada se espalhara na pequena vila em que morava, situada entre as montanhas. Os vizinhos dele evitavam a conversa prolongada devido à incompreensão da fala empolada do pobre homem.
Um dia caiu um temporal na vila de nosso protagonista. Por causa de um deslizamento de terra, a casa de João foi coberta pela lama e ele ficou soterrado em meio aos escombros. A equipe de resgate chegou duas horas depois do incidente e começaram as escavações à procura de João. Quarenta minutos depois de intenso trabalho, ouviram gritos estranhos vindos de onde possivelmente estaria a vítima. Gritos estranhos pois diziam: 

- Por obséquio, queiram-me acolitar a sair desta circunstância calamitosa!!

Por fim conseguiram chegar próximo ao local. Os bombeiros já avistavam, ao fim do pequeno túnel que cavaram, o rosto daquela vítima um tanto inusitada. Assim que João viu a ajuda vindo ao seu encontro, informou que havia apenas um tronco de árvore segurando todo o entulho que viria a cair e esmagá-lo completamente dizendo:

- Sr. profissional que combate incêndios e outros sinistros - o bombeiro ouvia com atenção - há uma tora, certamente advinda de um arvoredo longínquo, que ameaça precipitar-se e acarretar o meu possível óbto, pois - um grande barulho interrompeu João, já esmagado pelas pedras que rolaram do alto da montanha até o vale.

Próximo de João morreu também o bombeiro que ouvia - e tentava entender - as instruções da vítima naquele cenário de destruição. Ele amava seu trabalho, João amava sua língua portuguesa.

- Flávia Freitas Gomes